Ontem eu assisti Procurando Amy. Eu geralmente gosto muito dos filmes do Kevin Smith, mas esse me deixou com um gosto agridoce na boca. Adorei o filme, mas achei o final mais triste do que aparentemente a maioria das pessoas acha. Vai ver é pq eu me identifiquei muito com a personagem. Pra quem viu o filme e não me conhece, não, eu não sou lésica. Pra quem me conhece e não viu o filme, é a história de uma mina que resolve experimentar de tudo na vida em termos de sexualidade e que se define como lésbica, até começar a namorar o personagem do Ben Affleck, que surta quando descobre que a mina na verdade é experiente pacas em termos de sexo. Interessante: ele aceita muito bem saber que ela tinha caso com diversas mulheres, não se incomoda em saber que ela participava de surubas estritamente femininas, mas pira quando descobre que ela já tinha transado com dois caras ao mesmo tempo. E estraga tudo, tudo, tudo, tudo.
P q eu me identifico com a Alyssa (o filme chama Procurando Amy por um motivo bem legal)? Pq eu acho mesmo que as pessoas têm que experimentar de tudo na vida pra saber do que elas gostam ou não, pra não se arrependerem do que não fizeram, pra superarem os próprios preconceitos, pra tentarem ser felizes, pra terem opções, pra um monte de coisas. Eu não cheguei ao estágio de curtir mulheres, mas e se tivesse? Liberdade é um conceito muito mais mental que físico: a maior parte das pessoas passa a vida presa dentro de si, com medo de arriscar. Ser livre não é só ir e vir. É ir e vir fazendo o que vc acha que tem que fazer, não o que os outros esperam que vc faça. É um conceito complicado pacas de colocar em prática. Não tô nem dizendo que eu coloque sempre: eu tento, mas é difícil. Assim sendo, a verdade é que a Alyssa é meio que o meu eu idealizado. Se eu conseguisse largar mão de todas as minhas nóias, traumas e da minha educação começo do século XIX (e acho que nesse campo fiz progressos incríveis se comparado às outras mulheres da minha família) , seria exatamente naquilo que eu gostaria de chegar. Antes que os mais conservadores fiquem assustados, eu acho a bissexualidade um troço muito louco. Pena que eu não curto mulher. Mas eu juro que acho que isso tem mais a ver com algum preconceito da minha parte que eu pura e simplesmente não consigo identificar do que com o fato em si, propriamente dito. Não sei. Vai ficar pra outra vida, de qualquer maneira.
Mas aí eu parei pra perceber que ser uma pessoa assim acarreta outro tipo de problema: já é difícil pra um cara encarar e aceitar o passado das mulheres em geral, e nem precisa ser um passado escabroso. Basta saber que ela já saiu com um cara que ele conhece que já é um surto. Ex namorado e amizade são, de maneira geral, dificílimos deles conseguirem conjugar. Pras mulheres também, vá. Mas acho que enquanto os homens têm medo de serem traídos, as mulheres não gostam é da intimidade que a ex tem com os seus namorados. Pq não adianta o quanto eles nos amem e nos adorem e queiram casar e ter filhos e vida perfeita e realmente estejam dispostos a te amar eternamente, se é que isso existe; não dá pra apagar as marcas que um relacionamento anterior deixa em uma pessoa. Nem é pra ser assim, pq o cara que a gente gosta hoje só é daquele jeito pq passou por um monte de coisas com outras pessoas. Mas dói um pouco saber que o que moldou aquela personalidade, aquele caráter, não foi um processo do qual vc tenha participado. Homens tem ciúmes dos corpos das mulheres, e as mulheres têm ciúmes das almas dos homens, por assim dizer. Isso explica pq um cara não liga que a namorada beije outra mina na boca mas tem um treco por ela ser amiga do ex. Explica pq muita mulher aceita a situação de ser traída, acreditando no “É de mim que ele gosta de verdade!” Tudo estupidez. Uma grande e bela estupidez.
Mas o que realmente me deixou triste foi ver (e agora quem quer ver o filme talvez tenha que parar de ler, pq eu vou discutir o final) o cara perder a mina da vida dele por causa do ego. Sim, pq só um ego machucadíssimo é capaz de pôr tudo a perder por causa do passado da pessoa com a qual vc está se relacionando. Acho que é por isso que eu não entendo p q as pessoas não conseguem responder à perguntas sobre seus relacionamentos anteriores, ou o medo que elas têm de contar que já fizeram ménage, já saíram com alguém do mesmo sexo, etc. e tal. Eu devo ser muito ease going, tanto que não tenho problema nenhum em responder a esse tipo de pergunta, apesar do fato contar esse tipo de detalhe já ter me causados dores de cabeça mais de uma vez. Mas eu realmente acho que a minha vida é minha pra eu fazer dela o que quiser. Mesma coisa a vida alheia. E eu sou curiosa a respeito desse tipo de coisa: como foi a sua primeira vez, com quantas pessoas vc já transou, já participou de suruba... São todas perguntas cujas respostas não deveriam incomodar. Mas, não sei pq, incomodam.
Eu me incomodo com outro tipo de coisa: me incomodam detalhes que demonstrem intimidade, carinho, o quanto meu namorado foi especial pra alguém ou o quanto alguém foi especial pra ele. Isso me pica muito mais do que saber que o sexo com fulana era tudo de bom. Mas isso é outro ponto. O ponto aqui é que, no final, o que era uma puta história linda virou um item de coleção da memória, pq o cara não segurou a barra. No final, eles eram apenas conhecidos. Claro que tem mulher que faz a mesma coisa. A discussão aqui não é o gênero dos participantes, nem tô afirmando que homens são estúpidos e mulheres não. A condição humana é bem isso: humana. Mas eu parei pra pensar que eu já fui noiva e hoje nós mal nos olhamos na cara. Que eu tive um relacionamento longo com uma pessoa que agora prefere estar afastada. Que eu vou passar por tudo isso de novo. Não pq eu seja alguém super moderno que teve uma vida difícil de engolir. Não. Pq eu sou uma pessoa comum, e vou me relacionar com outra pessoa comum.
Nem todo mundo tem a sorte de encontrar uma Alyssa e, quando encontra, ao invés de pensar “Puxa, que bom, uma pessoa fantástica, e que já sabe o que caralhos quer na vida”, se intimida e foge. Vai ver é por saber que nunca vai ter esse mesmo grau de certeza. Vai ver é por medo. Vai ver é por um monte de bobagens. Mas elas nunca vão deixar de ser só isso: bobagens.
Sim, o filme me bolou. Deve ser pela fase que eu tô passando, não sei. Assistam.
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