terça-feira, 21 de outubro de 2003

Como as coisas parecem se ajeitar quando vc tem paciência, não? Eu costumo ter uns momentos de introspecção sentada lá na varanda, olhando para a Avenida Santo Amaro, no meio da madrugada, pensando que se eu fizesse menos disso e mais daquilo, talvez as coisas dessem certo. E, nessas noites, só de tomar decisões que eu não vou cumprir, já me sinto melhor para ir dormir e levantar na outra manhã, pq, na noite anterior, o dia seguinte sempre pode ser o dia mais feliz da sua vida.

Mas eu detesto ter que raciocinar sobre os meus impulsos e inclinações naturais. Seria tudo mais fácil se vc pudesse dizer que detesta que alguém faça determinada coisa, que não concorda com isso ou aquilo, ligasse para quem quer ligar, não se sentisse idiota por sentir demais, gritasse com aquele idiota que te fez sofrer mais do que vc imaginava possível. Seria muito melhor ser impulsivo sem medo do ridículo e das conseqüências. Mas aí todo mundo iria abusar e a sociedade viria abaixo. Não sei se isso chegaria a ser ruim, tem quem diga que isso já está acontecendo, sei lá.

A única coisa que eu sei é que me dei conta de que existem pessoas que são absolutamente apaixonadas pelo que fazem na vida, fazem opções menos lucrativas em prol da sua arte e são felizes. Não que eu não soubesse disso, mas é difícil entender algo que não faz parte da sua realidade, e eu não tenho nehuma grande paixão. E sou perfeccionista demais para fazer alguma coisa que eu não faça no mínimo muito bem, mesmo que dê dinheiro. E livre demais para fazer algo que eu deteste só por dinheiro. Então eu faço o que eu faço bem e gosto muito. Não sou perfeita nem é uma paixão na minha vida, mas é bom.

E está começando a dar certo!!! E, não sei, mas parece que, apesar de eu ter adiado o mais que eu pude, eu estou me tornando responsável, pq a situação está exigindo. Não foi exatamente uma escolha, mas o resultado está me agradando. Tô me sentindo útil e produtiva. E essa sensação eu adoro!!! Liberdade com responsabilidade.

Então eu gostaria de dar as boas-vindas à minha vida adulta!!! Eu já estou nela faz um tempo, eu sei, mas foi só nos últimos dias que eu comecei a me sentir menos menina, apesar de botar banca de mulher há anos. E o gatilho disso foi finalmente admitir em voz alta que eu não tenho nem solução nem opinião pra tudo, e sim que eu tenho medo. E tenho mesmo. E nem vem que todo mundo tem. Mas eu não tinha me dado conta. Achava que eu era a única pessoa que não tinha descoberto o que quer da vida, por isso me pautei pelo que eu não queria. Se vc não deseja nada, não vai se decepcionar por não conseguir, certo? ERRADO!!! O vazio fica lá do mesmo jeito, vc só finge que não vê. E dói igual, vc só finge que não sabe o motivo.

Bem, ser adulta não exclui ser feliz, nem falar sozinha na rua, nem se envergonhar, nem fazer coisas vergonhosas, nem tomar banho de chuva. Ou seja, não chega a ser ruim.

Foi bom descobrir isso. E eu tive ajuda nesse processo. Realmente nada acontece por acaso. E pensar que gente que a gente nunca tinha visto na vida diz uma frase do jeito certo e te faz enxergar uma montanha de coisas que estão lá faz uma cara, como aquele prédio que fica no caminho que vc faz há anos, e um dia parece que surge do éter, porque vc nunca tinha reparado nele antes.

E tem quem diz que não é privilégio nenhum viver nesse mundo, vê se pode!!!

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