sexta-feira, 6 de agosto de 2004

Então... Ando pensando demais na Link... Algumas vezes eu nem consigo acreditar que ela nem está mais aqui. Esses dias me dei conta que tive aquela gata durante metade da minha vida... Exatamente metade: eu peguei a gata uns dois meses depois de fazer 13 anos, ela morreu uns dois meses depois que eu fiz 26. Metade. A melhor metade.

Verdade seja dita, eu não sou do tipo conformista. Quer dizer, eu sou do tipo Poliana, sempre acho que as coisas vão melhorar. Mas não conformista. Eu aceito bem os defeitos das pessoas, da minha família, o fato do Maluf existir, o preço da gasolina e todas as outras imbecilidades do mundo. Mas não sou boa para lidar com conceitos do tipo "para sempre", "nunca mais" e afins.

Tô entrando em neuras terríveis. E se eu tivesse castrado a gata? Ela não teria tido a infecção de ovário que levou a todo o resto. E se eu tivesse me dado conta de que ela estava fraca antes? E se eu tivesse levado a gata antes para ser internada, e não tivesse esperado ter dinheiro? E se eu tivesse lutado menos, pra ela não sofrer tanto? E se eu tivesse lutado mais? E se eu não tivesse deixado de trocar o paninho dela aquela noite em que eu percebi que ela tinha feito xixi e estava molhada, ainda que quentinha? E se eu tivesse passado mais tempo com ela? E se eu tivesse...

Nunca mais. Eu detesto nunca mais!!! ODEIO Nunca mais!!!! Nunca mais ver, nunca mais tocar, nunca mais sentir o cheiro, nunca mais ouvir o miado, nunca mais xingar pq ela fez xixi no quarto ou na sala. Nenhum gato vai ser tão perfeito nunca. Ela detestava colo, mas subia no peito do meu irmão quando estava frio. Ela não gostava muito das pessoas em geral, mas era calma. Ela tinha medo de altura e pulava pra dentro quando a gente chegava perto dela na janela. Ela gostava de dormir no pé da minha avó, de carinho debaixo do queixo, atrás da orelha, atendia pelo nome, era fácil de dar remédio, pedia pra sair quando acostumou a ir ao jardim todos os dias para tomar sol, adorava os carinhos que a Urd fazia nela, sempre ia atrás da minha avó quando ela ia pra cozinha, detestava dormir debaixo das minhas cobertas, tinha mania de enjoar da ração, nunca gostou de brincar com ratinhos ou bolinhas, não ligava para passarinhos, a vida toda afiou a unha nos sofás, adorava leite, detestava peixe, detestava outros gatos, nunca pediu comida mas desenvolveu o costume de roubar comida, não brincava com brincos ou coisas que vc deixasse sobre a mesa, adorava dormir sobre as minhas roupas, costuma pular na minha perna, procurava os raios de sol pra passar o dia dormindo quentinha, sempre mudava seu lugar preferido na casa, gostava de dormir no travesseiro e por isso empurrava a nossa cabeça até ter espaço, sempre estava no cômodo em que eu estava, gostava de caixas... Tantas coisas só dela... Só nossas.

Alguém por favor me diz quando pára de doer? Eu não sei, não faço idéia... Eu espero, espero e espero, e simplesmente não passa. Ainda não consigo dormir de luz apagada, a não ser que esteja acompanhada. Não consigo olhar direito para outros gatos. Todos me fazem sentir falata dela. Outro dia o gato do Thiago teve um acesso de vômito e eu comecei a chorar. Pq todo gato quando vai vomitar faz o mesmo barulho, e me deu um frio na barriga, um gelo. E eu me sinto idiota. Idiota porque tem gente que perde pai, mãe, irmão. Tem gente que perde a perna, o braço, o filho, a casa, a vida e continua a viver. E eu não consigo parar de chorar... Sinto falta de ter um gato e tenho horror da idéia de tê-los. Porque nenhum vai ser como ela era, e ela não vai ser nunca mais.

Sabe, eu sei que não adianta fazer pirraça com a vida, ou vc a leva ou ela te leva, não tem volta, não tem undo, não tem savepoint. E eu juro que não é isso. Só que tem dias, como hoje, que eu desato a chorar, só consigo sentir saudades, sentir culpa, sentir falta... Eu só queria saber quando acaba o luto, se é que ele acaba. Ou se superar é só aprender a conviver com a dor.

Sem comentários, por favor.

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