Outro dia eu prometi ao kita que escreveria um post sobre se "é possível amar uma pessoa muito, ter todos os indícios de que essa é a pessoa da sua vida, completar frases e prever com perfeição as atitudes e sentimentos dela sem querer namorá-la? Pior, é possível já ter tudo isso e ainda querer achar outra pessoa (*talvez* melhor) ?"
Pois bem, primeiro acho que a pergunta não é "se é possível", porque acontece todos os dias e quase todo mundo que tem alguma sorte na vida tem alguém assim. Acho que a pergunta mesmo é: por que vc não ama alguém que aparentemente foi feito sob medida para vc. Ou, melhor dizendo, pq vc não sente o amor "romântico" pela sua alma gêmea? E essa pura e simplesmente é uma das poucas perguntas para as quais eu, do alto das minhas filosofias e teorias de aplicação prática individual, pura e simplesmente não tenho resposta. E não tenho resposta justamente porque vai contra tudo que eu acredito sobre relacionamento.
Eu tenho uma visão bem definida do que é, para mim, um relacionamento. Antes de mais nada, para que vc tenha uma base, primeiro tem que conhecer a pessoa. Vc até pode topar namorar alguém que vc não conheça direito, mas amor implica conhecimento. Ninguém pode dizer e achar que fulano é o amor da sua vida em um, dois, três meses. Ou até pode, e no final estar certo, mas pode apostar que foi sorte. Impossível amar alguém sem conhecer, não completamente, que o ser humano é capaz de te surpreender após 40 anos de convivência intensa, mas sem saber o mínimo sobre aquela pessoa, e os três primeiros meses são pura festa. Os três meses seguintes são um estabelecimento e, na minha opinião, é mais ou menos a partir daí que vc pode começar a avaliar. Claro, tudo isso dentro do meu parâmetro e na minha humilde opinião, mas o blog é meu mesmo e está aqui para isso.
Amor à primeira vista? Desculpa, mas não acredito. Vc pode enxergar o potencial de uma relação, mas não o relacionamento. É por isso que aquele príncipe encantado vira sapo e aquela mina fantástica "desenvolve repentinamente" um ciúme doentio. No começo, o seu próprio estado de espírito impede que vc conheça e se deixe conhecer: vc está inclinado a relevar, a minimizar, a deixar para lá. Só que isso não dura para sempre. Uma hora vc estoura pq fulano faz algo que vc não gosta ou começa a implicar com alguma coisa que ele adora, e aí é que são elas. Conhecer alguém é aparar essas arestas, ceder em algumas coisas, bater o pé com relação a outras, sempre visando o conjunto, não seu bem-estar individual. Assim, um sentimento forte e duradouro e um relacionamento sólido podem se desenvolver. E tudo isso dá um trabalho danado.
Mas existem algumas pessoas que, aos poucos ou de repente, entram na nossa vida e se estabelecem em nossos corações como pessoas ímpares. São aqueles que vc conhece como a palma da sua mão, tanto os defeitos quanto as qualidades. Sabe como irão reagir diante de determinada frase, o que irão achar de determinado texto, se vão odiar determinada pessoa e vão adorar determinado presente. Com eles, somos capazes de ficar horas trocando idéias sérias ou falando futilidades; realmente levamos suas opiniões em consideração; nos preocupamos sobre o que acharão quando souberem que fizemos isso ou aquilo, mas mesmo assim não escondemos nada, até porque confiamos que nunca nada vai mudar o status de perfeição desse relacionamento. Definitivamente, são pessoas que amamos, profunda e sinceramente. Então, por que ainda procuramos alguém mais?
Bem, é aqui que eu tenho que admitir que não sei a fórmula universal para semelhante dilema. Quer dizer, todas as minhas teorias partem do princípio que o ser humano é basicamente formado pelos mesmos sentimentos, e que alguns são mais dominados por uns do que por outros. Logo, dá para tirar uma média sobre como as pessoas se sentem com relação à maioria das coisas mais corriqueiras, chengando até a conseguir prever determinados padrões de comportamento se vc conhece alguém um pouco mais. É nisso que eu baseio os meus posts (e vc achou que eu estava só fazendo graça, não?). Se pegarmos o post anterior como exemplo, eu sei que, de maneira geral, mulheres não gostam de ser forçadas a nada e algumas, em especial, detestam fazer sexo oral, o que me dá uma certa autoridade para dizer que a grande maioria detesta ser obrigada a. Mas com relação a este problema específico, acho muito complicado traçar um padrão. Pior: a minha própria experiência nesse campo não me trouxe uma explicação coerente. Então vou partir para um "achismo" tremendo.
Se nós formos avaliar a minha vida romântica, iremos nos deparar com um desastre tremendo, na medida em que eu estou sozinha. Quer dizer, eu tive namorados espetaculares, e não foram um ou dois. Caras que foram muito sacanas com todas as ex anteriores a mim foram absolutamente fantásticos comigo. A maioria deles servia para casar e passar o resto da vida, inclusive. Mas todos se foram. Uns mais outros menos, mas todos ficaram lá, no passado. E eu desenvolvi uma percepção cruel de que nada é para sempre, pelo menos nesse quesito. Não existe amor eterno dentro de um relacionamento marido/mulher, namorado/namorada, amante/amante. Acho que o fato de vir de uma família em que nenhum casamento durou ajudou a construir e consolidar essa visão meio cínica. Eu não acredito em fidelidade. Eu não acredito em "para sempre". Eu não acredito em alma gêmea.
Não quer dizer que eu não acredite que isso exista no mundo. A Fê e o Dan, a Sá e meu irmão, a Alina e o Dani são os fiéis depositários da minha crença de que o mundo é um lugar no qual nem todo mundo está fadado a se arrastar sozinho. Eu mesma já achei que tinha tido essa sorte uma vez. Achei não, tive certeza, e foi isso que estragou tudo. Porque ter certeza de algo que não acontece é das piores rasteiras que um ser humano de caráter romântico como o meu pode tomar. Faz com que vc pare de ter certeza de qualquer coisa, não pq quer, mas porque a coisa se entranha de tal forma que, quando vc vai ver, não consegue mais acreditar, porque suas certezas não adiantam de nada, não fazem nada acontecer. Triste, né? Também já achei. Agora, acho natural. É como acreditar em Papai Noel: um dia te contam que ele não existe e, por mais triste que seja, vc se acostuma. Mas os natais nunca mais são tão legais quanto na época em que ele existia.
Mas eu estou divagando. O ponto é que só existe uma coisa que tem se mostrado permanente e nada transitória na minha vida: meus amigos. Porque a minha noção de amizade nunca incluiu a obrigatoridade da proximidade. Meus amigos podem ficar 1 mês ou 10 anos afastados, são meus amigos. É um estado permanente, sem retorno. No meu mar revolto, são as âncoras. Eles me definem, me dizem quem eu sou, me apoiam, me irritam, pisam na bola, me desculpam pelas minhas pisadas, me amam e são por mim amados de maneira feroz, apesar de muitos deles acharem que eu sou muitas vezes até sem consideração. Porque, como tudo que eu faço na vida, esse amor incondicional se expressa da minha maneira, e não da maneira como, muitas vezes, eles gostariam.
Sabe o que isso significa? Que eu nunca colocaria o tal relacionamento perfeito lá de cima em xeque tornando meu melhor par meu namorado. Por que isso passa, sempre passou. E meus amigos, salvo raríssimas exceções, não. Mas como eu disse, eu acho que essa é a minha explicação. Tenho quase certeza disso, mas não aposto todas as minhas fichas. Assim sendo, só posso me solidarizar com quem já teve alguém tão perfeito, mas tão perfeito, que nunca encostou a mão e tem horror à idéia de se ver com essa pessoa. Vc não é o único nem será o último. E vc não está procurando coisa melhor, pq coisa melhor não existe. Vc está preservando uma coisa que lhe é cara. Ou não.
E se vc leu isso até o final, deixe seu nome e e-mail para contato, pois vc ganhou um brinde. Acho que esse é o post mais longo que eu já escrevi, principalmente para um assunto tão pesado. E não, eu não estou deprimida. Fui factual, do meu ponto de vista, só isso.
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